
O mercado de trabalho formal brasileiro registrou um aumento de 11% na participação feminina em 2025, impulsionado por um crescimento de 29% nas contratações de mulheres negras. Contudo, o 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado nesta segunda-feira (27) pelos ministérios do Trabalho e Emprego (MTE) e das Mulheres, revela que a desigualdade de renda persiste no país: as trabalhadoras recebem, em média, 21,3% a menos que os homens. No recorte regional, o Espírito Santo apresenta o maior índice de disparidade salarial do Brasil, embora seja destaque na adoção de políticas afirmativas corporativas. O documento governamental tem como base os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e abrange 53,5 mil estabelecimentos da iniciativa privada com 100 ou mais empregados. Entre 2023 e 2025, o número dessas grandes empresas cresceu 5,5%, e o total de empregos nessas companhias subiu 7%, passando de 18 milhões para 19,3 milhões de trabalhadores. O cenário capixaba Apesar do aquecimento da economia nacional, persistem fortes diferenças regionais. O Espírito Santo foi apontado pelo levantamento como o estado com a maior desigualdade salarial do país (70,7%), seguido por Rio de Janeiro (71,2%) e Paraná (71,3%). Em contrapartida, os estados com a menor desigualdade são Acre (91,9%), Piauí (92,1%) e Distrito Federal (91,2%). Por outro lado, as empresas capixabas se destacam no ranking nacional de inclusão e ações afirmativas. O Espírito Santo lidera as políticas de incentivo à contratação de mulheres LGBTQIAP+ (presentes em 24,6% dos estabelecimentos) e, ao lado de Minas Gerais, ocupa o primeiro lugar em políticas de contratação de mulheres vítimas de violência doméstica (11,6%). Avanço histórico para trabalhadoras negras Um dos principais destaques do levantamento é a ampliação das oportunidades para mulheres pretas e pardas. O número de trabalhadoras desse grupo ocupadas nas grandes empresas saltou de 3,2 milhões em 2023 para 4,2 milhões em 2025. Esse acréscimo de 1 milhão de vagas representa um crescimento de 29%. Considerando o total de mulheres no mercado formal de grandes empresas, o contingente passou de 7,2 milhões para 8 milhões no mesmo período, o que representa a adição de 800 mil novos postos de trabalho feminino. A matemática da desigualdade Apesar do maior número de carteiras assinadas, a diferença salarial aumentou. Em 2023, as mulheres recebiam 20,7% menos que os homens; em 2025, a defasagem atingiu 21,3%.
"Quando nós defendemos a igualdade salarial, não estamos defendendo puramente aquele número nominal de valor do salário das mulheres e homens numa empresa. Nós estamos falando da função que essa mulher está, das condições de trabalho em que ela se encontra, dos direitos que ela já tem garantidos e que muitas vezes não são cumpridos. [...] As mulheres ainda se ressentem muito de todos esses processos que as discriminam, que as inferiorizam, que as subalterniza por vários interesses e, principalmente, pela cultura ainda misógina, machista".O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, endossou a fala, apontando a necessidade de evolução nos planos de carreira:
"Não é somente a igualdade de salário na mesma função. Nós estamos falando da necessidade da promoção de valorização das mulheres na ascensão nas carreiras. Nós queremos estabelecer passo a passo, degrau por degrau, na construção da igualdade salarial, mas ela é um pedacinho do todo que nós desejamos quando se debate o direito das mulheres".Já a ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, focou na realidade das trabalhadoras pretas e pardas:
"Esse relatório é um instrumento muito importante para todos nós que buscamos promover igualdade de gênero, igualdade de raça [...] e garantir que mulheres tenham melhores salários, que mulheres negras, que ainda seguem sendo aquelas que recebem os piores salários, recebam de acordo com o trabalho que exercem. Esse instrumento ajuda muito a gente a avançar, a mostrar o quanto que nós precisamos caminhar".Ascensão e liderança O relatório também documentou progressos nas políticas internas da iniciativa privada. O número de estabelecimentos com mulheres ocupando cargos de gerência e direção em proporção suficiente para o cálculo de paridade salarial cresceu 12%, totalizando 13,7 mil empresas. Foram registrados avanços em benefícios como flexibilização de jornada, auxílio-creche e licenças parentais estendidas. No panorama nacional de incentivos específicos, além dos destaques já citados do Espírito Santo e Minas Gerais, Rondônia lidera a contratação de mulheres com deficiência (27,1% das empresas), enquanto o Pará detém o maior percentual de estabelecimentos focados na contratação de mulheres negras (24,8%).