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A vila de Regência, no litoral de Linhares, no Norte do Espírito Santo, celebra anualmente nos primeiros dias de junho o Dia de Caboclo Bernardo, data institucionalizada para marcar o aniversário de morte do pescador capixaba, assassinado em 3 de junho de 1914. O evento mobiliza cerca de seis mil turistas, devotos e dezenas de grupos de congo para homenagear Bernardo José dos Santos, homem de origem indígena que arriscou a própria vida em 1887 para salvar 128 tripulantes do naufrágio do Cruzador Imperial Marinheiro na foz do Rio Doce.


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O naufrágio e as cinco horas de resgate O ato heroico ocorreu na madrugada do Dia da Independência, em 7 de setembro de 1887. O Cruzador Imperial Marinheiro, que realizava uma missão hidrográfica, perdeu a orientação sob uma violenta tempestade e falha nas bússolas, encalhando em bancos de areia a 120 metros da praia de Regência. Após um escaler de emergência ser destruído pelas ondas na tentativa de buscar socorro em terra, a população local, deparando-se com as fortes correntes, encontrava-se paralisada diante da fúria do mar. Foi nesse momento de letargia coletiva que Bernardo se voluntariou para o resgate. O catraieiro tentou transpor a arrebentação do mar quatro vezes seguidas carregando um robusto "cabo de espia", mas foi sucessivamente arremessado de volta à areia pelas ondas. Na quinta tentativa, Bernardo prendeu o cabo à própria boca, técnica que relatou posteriormente em entrevista ao jornal A Província do Espírito Santo: "Eu vi o navio perder-se e então prendi o cabo aos dentes e atirei-me ao mar para salvá-los". Com a linha estabelecida entre o navio acidentado e a praia, a tripulação utilizou uma chalana de fundo chato para transportar os sobreviventes. A operação de transporte durou cinco horas consecutivas. O esforço de Bernardo resultou na salvação de 128 vidas, enquanto 14 marinheiros pereceram no desastre. Condecoração imperial e o apagamento étnico A notícia do salvamento transformou Bernardo em uma celebridade de proporções nacionais. Em 6 de outubro de 1887, em audiência no Rio de Janeiro, a Princesa Isabel conferiu a ele a Medalha Humanitária de 1ª Classe, cunhada em ouro maciço. O diploma imperial, contudo, omitiu a origem indígena e a identidade parda de Bernardo, referindo-se a ele estritamente como "remador da catraia", um reflexo das ideologias de branqueamento e assimilação do Império Brasileiro. O pescador recusou propostas de cargos públicos e pensões financeiras. Em contrapartida, pleiteou à Princesa Isabel a construção de um mecanismo de sinalização para prevenir novos naufrágios na foz do Rio Doce. O pedido foi concretizado em 1895, com a inauguração do Farol de Regência pela Marinha. Retornando ao anonimato e à dura rotina de pescador, Bernardo foi assassinado aos 55 anos de idade, no dia 3 de junho de 1914, atingido no peito por um tiro de garrucha disparado à queima-roupa por Leonel Fernandes de Almeida, um vizinho da própria comunidade. Em depoimento à polícia, o homicida apresentou uma justificativa que entrou para os anais judiciários como absurda: alegou que a arma disparou porque ele pretendia "atirar em um papagaio que estava comendo banana" no quintal anexo. Rumores da época, nunca confirmados materialmente, apontavam para um crime passional motivado por ciúmes. Leonel foi condenado a 17 anos de prisão, mas cumpriu apenas seis anos em regime fechado. Tambores, congo e o reconhecimento nacional Para assegurar a memória viva de Bernardo frente ao esquecimento histórico, a comunidade de Regência transformou o início do mês de junho em um marco de resistência afro-indígena e folclórica. O evento atrai diversas bandas de congo de municípios vizinhos, como Aracruz, Serra, João Neiva e Conceição da Barra. A romaria musical inicia-se no terreno da saudosa Dona Mariquinha, matriarca do congo local, onde se localiza uma capela em devoção ao herói, e segue em procissão até o busto de bronze fixado na praça da Igreja Matriz. A festividade também inclui o espetáculo rural do Trio Fubica e recitais de literatura de cordel. A homenagem se estende às artes cênicas com o espetáculo "O Auto do Caboclo Bernardo", operado há três décadas pela Cia de Artes Regência Augusta. A montagem atual conta com cerca de 35 atores locais em praça pública e incorpora a "Teoria das Cinco Peles" do pensador austríaco Friedensreich Hundertwasser, recriando as condições extremas do naufrágio e abordando a conscientização ambiental. Atualmente, há um esforço político para elevar Caboclo Bernardo à condição oficial de Herói Nacional. O Projeto de Lei nº 2500/2023 tramita na Câmara dos Deputados em Brasília, com o objetivo de aprovar a inscrição de seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves.