
A promessa de dinheiro fácil aliada ao uso indevido da credibilidade de grandes empresas e à cobrança de taxas via Pix tornou-se a principal estratégia de fraude digital no Brasil. A conclusão integra a segunda edição do relatório A Jornada dos Golpes, divulgado nesta quarta-feira (17) pelo Observatório Lupa. O estudo tomou como base a análise de 115 conteúdos fraudulentos virais que circularam pelo país entre maio de 2024 e abril de 2026 para mapear as táticas adotadas pelos criminosos na internet. Estratégias repetitivas e previsíveis Os dados do relatório apontam que 74% dos golpes exploravam a imagem de companhias ou personalidades conhecidas para transmitir uma falsa aparência de legitimidade. Além disso, 71% das fraudes prometiam algum tipo de vantagem financeira às vítimas e cerca de um terço exigia pagamentos exclusivamente por meio do Pix. A pesquisa identificou que as abordagens se repetem ao longo do ano com adaptações mínimas, acompanhando datas sazonais e temas em evidência no noticiário. O catálogo de iscas inclui falsas promoções, indenizações inexistentes, vagas de emprego fraudulentas, brindes supostamente gratuitos e benefícios sociais fictícios. De acordo com a pesquisadora responsável pelo estudo, Beatriz Farrugia, a ausência de ineditismo nas fraudes facilita a prevenção. "Eles reutilizam estruturas que já funcionaram, adaptam a narrativa ao contexto do momento e se aproveitam da confiança que as pessoas depositam em marcas conhecidas, instituições e figuras públicas", afirmou. Distorção de fatos reais e alvos recorrentes Para aumentar a eficácia das abordagens, os golpistas focam em indivíduos em situação de vulnerabilidade econômica que buscam descontos ou renda extra. A tática de distorcer fatos reais esteve presente em 66% dos golpes analisados, um aumento em relação aos 55% registrados no período anterior. Os criminosos manipulam páginas institucionais, reportagens jornalísticas, decisões judiciais, comunicados oficiais e programas de governo para conferir autenticidade ao material. "Muitas vezes, a fraude não nasce de uma informação totalmente inventada, mas da adulteração de fatos verdadeiros, marcas reconhecidas ou notícias que já circulam na imprensa", explicou a pesquisadora. O levantamento listou mais de 15 instituições, entre bancos, empresas de varejo e plataformas digitais, que tiveram suas marcas utilizadas indevidamente. Mercado Livre e Nubank registraram quatro ocorrências cada, figurando entre os principais alvos, ao lado de Shopee, Serasa e Rede Globo. O uso da imagem de médicos, jornalistas, influenciadores e personalidades públicas também foi documentado como um recurso frequente de convencimento. Migração de canais e coleta de dados O ciclo das fraudes possui um roteiro definido. A captação das vítimas tem início em redes sociais abertas, como Instagram, TikTok e Facebook. Na sequência, o usuário é direcionado para ambientes privados, como formulários online criados para a extração de dados pessoais e aplicativos de mensagens. Entre maio de 2025 e abril de 2026, o WhatsApp esteve presente em quase 65% dos golpes mapeados, consolidando-se como a principal via de circulação desse tipo de conteúdo. É nestes canais fechados que o Pix é apresentado pelos criminosos como a única forma de pagamento viável para arcar com taxas fictícias exigidas para a liberação das falsas vantagens. O papel e a responsabilidade das plataformas O relatório também aborda a monetização das fraudes dentro das grandes empresas de tecnologia. O texto cita documentos internos da Meta, revelados pela imprensa em novembro de 2025, indicando que a companhia teria arrecadado cerca de US$ 16 bilhões em 2024 apenas com anúncios associados a golpes e produtos proibidos. O montante representa aproximadamente 10% da receita anual da empresa. Segundo o Observatório Lupa, este caso intensificou o debate global acerca dos mecanismos de fiscalização publicitária e da responsabilidade das plataformas digitais em coibir as fraudes. Diante do cenário de previsibilidade nas narrativas, distribuição e monetização dos golpes, Beatriz Farrugia pontuou a necessidade de uma ação conjunta unindo órgãos públicos, instituições financeiras, empresas de tecnologia, imprensa e usuários. "Quanto melhor entendermos esses padrões, maiores serão as chances de antecipar ameaças, reduzir vulnerabilidades e proteger os usuários", concluiu a pesquisadora.